O bairro do Beiru/Tancredo Neves vai contar com uma nova ferramenta de fortalecimento da educação pública e da participação social: o Observatório Educacional Municipal (OEM). Coordenada pela Fundação Paulo Cavalcanti e pela Associação Mosaico de Amor (AMA), a iniciativa traz o objetivo de gerar dados, análises e subsídios concretos para políticas públicas educacionais locais, colocando a comunidade no centro do processo de diagnóstico, acompanhamento e transformação da realidade escolar.
A ideia surgiu durante o 1º Fórum Popular de Educação do Beiru e Adjacências, realizado no dia 20 de setembro, no Colégio Estadual Zumbi dos Palmares, reunindo estudantes, professores, famílias, lideranças comunitárias, poder público e organizações sociais em um amplo espaço de escuta, diálogo e construção coletiva.
Essa integração foi defendida pelo empreendedor social Evandro Cabral, que lançou a proposta de criação do observatório educacional: “E se a sala de aula se estendesse para as ruas do bairro? E se os problemas do dia a dia, como o trânsito caótico ou a gestão do lixo, se tornassem o principal material de estudo para os alunos? A nossa proposta é criar um observatório em parceria com as escolas da comunidade. Queremos levar para a sala de aula os questionamentos que são nossos, que são do bairro. A ideia é muito prática: fazer com que os alunos associem o assunto estudado com os problemas daqui.”
O Observatório nasce do entendimento de que educação não se transforma apenas com discursos ou decisões distantes, mas com informação qualificada, organização social e participação de quem vive o território.
Como explica o professor Ney Campello, consultor do projeto, o OEM atuará no monitoramento de indicadores de acesso, permanência e aprendizagem de estudantes das escolas públicas e privadas do território, reunindo dados administrativos e comunitários.
“Os dados coletados serão analisados por um Núcleo Técnico, formado por voluntários e estagiários, e posteriormente validados em espaços abertos à comunidade. A cada trimestre, o Observatório produzirá boletins, painéis e análises públicas, ampliando o acesso a informações confiáveis sobre a educação local”, complementa o educador.
O funcionamento seguirá um ciclo permanente: Coleta → Análise → Validação Comunitária → Divulgação, garantindo transparência, escuta e responsabilidade social.
Diretora da Fundação Paulo Cavalcanti, Cris Santos aponta que um dos pilares do Observatório é o protagonismo da própria comunidade.
“Para isso, o OEM contará com o Fórum de Educação Popular, espaço de diálogo periódico que reunirá moradores e instituições para validar informações, orientar ações e fortalecer vínculos entre escola e território. Além disso, serão realizadas oficinas participativas com educadores, estudantes e famílias, aproximando os dados da realidade cotidiana”, descreve Cris.
O Observatório não substitui escolas nem gestores, tampouco interfere na autonomia pedagógica. Seu papel é apoiar, iluminar problemas, apontar caminhos e fortalecer decisões baseadas em evidências.
Neste sentido, o diretor do colégio Zumbi dos Palmares, Anderson de Araújo, lembrou que a escola é muito maior que as salas de aula: “Precisamos continuar trabalhando para derrubar os muros que nos separam das famílias. Não podemos fechar o espaço só para as aulas propriamente ditas. A escola tem que promover esse tipo de ligação com instituições, com a comunidade local.”
Ética, transparência e proteção de dados
O projeto assume compromissos rigorosos com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), garantindo a privacidade de estudantes, educadores e famílias. Todas as informações serão utilizadas exclusivamente para fins educacionais e comunitários.
O OEM contará ainda com uma Comissão de Ética, responsável por supervisionar processos, assegurar boas práticas e preservar a confiança da comunidade, elemento essencial para a legitimidade do Observatório.
Como destaca Paulo Cavalcanti, o OEM também busca expandir os propósitos do Movimento Via Cidadã e da filosofia da consciência cidadã participativa transformadora.
“A ideia é de união, consciência cidadã, transformação. Não podemos deixar nossos bairros sozinhos, nem aceitá-los reduzidos a rótulos como ‘tomados’ ou ‘perigosos’. São territórios com história, com gente que estudou, cresceu e já transformou vidas. Hoje temos ferramentas e iniciativas concretas em torno de um mesmo propósito: transformar realidades”, descreve Cavalcanti.
Ainda durante o Fórum, a estudante Mayara Eduarda de Jesus Santos, do 1º ano do Zumbi dos Palmares, emocionou os presentes: “Eu estou hoje nessa linha de educação e me sinto muito feliz por ter a oportunidade de vivê-la de uma forma boa. Mas eu peço que a gente pare para pensar: quantos meninos e meninas de 16 anos, da minha idade, não têm acesso à educação? Estar na escola, poder dividir experiências e aprendizados, é um direito meu e seu. Independente de idade, de cor, de onde a gente mora, é um direito de todos viver a educação.”
O próximo passo será a realização de um novo encontro comunitário no início de 2026, no qual serão apresentados o desenho final do Observatório, suas estratégias de implementação, o papel de cada parceiro e o calendário inicial de ações.