Jean Santos no É da nossa conta!: formar cidadãos, não espectadores

Por: Movimento Via Cidadã

28/01/2026

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A transformação social não começa em gabinetes nem em discursos de ocasião. Começa quando alguém se reconhece como parte do todo e decide agir. Essa foi a tônica do episódio 77 do podcast É da Nossa Conta, exibido nesta segunda-feira (26), conduzido por Paulo Cavalcanti, que recebeu o educador e empreendedor social Jean Santos para uma conversa direta sobre cidadania, educação, identidade e futuro.

Sem rodeios nem retórica vazia, o episódio escancara uma questão incômoda: por que uma parte expressiva da população brasileira foi ensinada a sobreviver, mas não a sonhar?

Reconhecer-se como potência

Nascido e criado no bairro do Beiru/Tancredo Neves, onde atua até hoje, Jean Santos se apresenta sem pedir licença. “Eu sou um homem negro, bonito, com inteligência, com sagacidade, um pai de família”, afirma. Para ele, o ponto de partida da transformação social é o reconhecimento de si como sujeito de valor.

“Todo ser humano, independente de crença ou valores, é um ser de transformação”, diz Jean. Segundo o educador, algo foi retirado historicamente das populações periféricas: o direito de se perceber potente. “Se eu não me reconhecer como bonito e potente, eu me perco”, resume.

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Educação que forma gente inteira

Paulo Cavalcanti conduz a conversa para o campo da educação cidadã e da responsabilidade coletiva. Para ele, não há democracia possível sem cidadãos preparados para pensar, escolher e assumir consequências.

“Acredito que o Brasil é formado por todos nós, e a Constituição de 1988 diz que somos todos iguais”, afirma. Ele destaca que o pacto social pressupõe escola pública eficiente, acesso à saúde e segurança, e um sistema que funcione para todos, não apenas no discurso.

O problema, segundo os dois, não é falta de fala, mas de formação. “Precisamos dar oportunidade para que as pessoas desenvolvam seu senso crítico através do conhecimento e da educação”, defende Paulo.

Consciência racial sem caricatura

Ao tratar da questão racial, Jean Santos evita slogans e simplificações. Para ele, o “roubo” é simbólico. “A pessoa negra da periferia muitas vezes não se sente no direito de sonhar, escrever um livro ou viajar; esse sonho foi podado”, afirma.

A Lei 10.639 aparece no diálogo como instrumento de pertencimento e pensamento crítico. “Não fui ensinado a ser empreendedor social”, relata Jean, ao falar de sua trajetória. “A gente se reconhece no outro. A vida é um diálogo.”

Trabalho, informalidade e hipocrisia política

O episódio também entra no debate sobre trabalho e informalidade. Paulo Cavalcanti critica propostas que ignoram a realidade da maioria dos brasileiros.

“Como defender uma jornada de trabalho apenas para quem tem carteira assinada, que é minoria?”, questiona. Para ele, discutir direitos sem considerar o ambulante, o feirante e o trabalhador informal é um sintoma de imaturidade política. “Onde estamos nós, a sociedade civil organizada, para orientar o povo?”, provoca.

Jean reforça a crítica apontando a ausência de formação cívica. “O primeiro requisito da inteligência cidadã é se reconhecer como sujeito de direitos e de potência, caso contrário, a pessoa cai na ociosidade esperando as coisas caírem do céu”, afirma.

Mobilização musical e economia de comunhão

A conversa ganha densidade quando Jean apresenta a Mobilização Musical, iniciativa criada no Beiru a partir da doação de instrumentos esquecidos em casas. Hoje, o projeto reúne cerca de 1.500 instrumentos usados na formação de crianças e jovens.

“Isso é economia de comunhão: um pede, o outro oferta, e ambos mantêm a dignidade”, explica. O método é simples: convivência, troca e aprendizagem coletiva. “Uma criança ensina a outra”, relata Jean, destacando que o aprendizado acontece sem imposição.

Ciência na periferia e empreendedorismo de sonhos

Jean Santos também relata o impacto simbólico de levar instrumentos como o violino para a periferia. “Roubaram nosso senso de cientista”, afirma. Um dos jovens formados nesse processo hoje atua como luthier, restaurando instrumentos.

Em setembro de 2024, Jean foi convidado a participar do encontro internacional da Economia de Francisco, no Vaticano. Lá, ouviu uma frase do Papa Francisco que marcou sua trajetória: “Não devemos ser administradores de medo, mas empreendedores de sonhos.”

Não é inspiração; é responsabilidade

O episódio termina com anúncios concretos: a criação do Observatório Educativo do Beiru, a certificação de 24 participantes em programas de fortalecimento de negócios de comunhão e a articulação com projetos de apoio jurídico e contábil para pequenos empreendedores.

Nada de finais edificantes. O recado é direto: cidadania não é sentimento, é prática cotidiana, dá trabalho, exige estudo e cobra posicionamento.

Como resume Paulo Cavalcanti ao encerrar o programa: “É por isso que é da nossa conta.”