O primeiro episódio de 2026 do podcast É da Nossa Conta, exibido nesta segunda-feira (12), não veio com promessas fáceis nem frases de efeito. Veio com método, experiência e reflexões: afinal, o que muda quando o cidadão para de “olhar para o céu” e passa a usar ciência, informação e coragem para decidir o próprio destino?
Na conversa, Paulo Cavalcanti recebe a jornalista, professora e influenciadora social Thaic Carvalho para um diálogo direto — às vezes descontraído, às vezes duro — sobre previsão do tempo, jornalismo, informalidade, educação cidadã, maturidade democrática e empreendedorismo.
Logo na abertura, Paulo dá o tom do programa:
“Não importa o pé que você quer entrar o ano, mas que você entenda o valor que você tem, bata no peito e diga: ‘Eleja-se, eu sou sim o cidadão brasileiro que tem o poder da nossa nação’.”
Continua após a publicidade. Confira o episódio:
Thaic responde no mesmo compasso, celebrando o encontro e desejando um ano novo menos passivo e mais consciente:
“Que 2026 venha com prosperidade, com saúde e com consciência cidadã.”
Da TV à carreira solo: quando a coragem vira método
Thaic conta sua trajetória sem romantizar a decisão de sair da televisão. Jornalista formada pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), com mestrado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e anos como âncora do Jornal da Manhã da TV Bahia, ela explica por que pediu demissão em 2023:
“Resolvi pedir demissão, num ato de muita coragem, porque eu queria tocar o barco, queria ‘pau na máquina’. A CLT meio que aprisiona a gente, tem essa falsa sensação de segurança.”
A aposta deu certo. A previsão do tempo, explicada por ela com linguagem simples, mapas e imagens de satélite, migrou para as redes sociais e virou marca registrada. Todos os dias, no mesmo horário. Toda quinta, uma live ao vivo percorrendo os 417 municípios da Bahia.
“Eu tenho noção desse meu papel, é uma responsabilidade.”
O exemplo que ela relata diz tudo:
“Um produtor me perguntou se podia plantar a semente pela manhã esperando chuva à tarde. Eu disse que tinha previsão. Quando choveu, ele fez um vídeo ajoelhado agradecendo. As imagens de satélite batem certo.”
A hashtag veio do público: #ThaicNãoErra.
Ciência para prever a chuva. Conhecimento para governar o país
Paulo puxa a analogia que atravessa o episódio:
“Veja que para você acertar, você foi atrás de ciência e tecnologia. Isso é o que a gente precisa aprender no nosso direito como cidadão político.”
Daí o debate avança para a informalidade, a baixa autoestima cidadã e a relação conflituosa com o Estado:
“A maioria do povo brasileiro não sabe o que é democracia, não sabe como funcionam as instituições e muito menos se reconhece como pagador”, provoca Paulo.
Thaic não hesita quando ele pergunta como o informal enxerga o poder público:
“Infelizmente, contra. Ele vai correr.”
Paulo insiste:
“Ele sustenta o sistema quando compra comida ou roupa, mas não se sente assim. Se você se entender assim, você pode cobrar saúde pública. Não tem que ficar na fila da dor ou da morte.”
Jornalismo como educação
Quando o tema é imprensa, Thaic fala com o conhecimento de quem viveu a redação por dentro:
“Eu sempre vi o jornalismo como forma de educação. Não fiz jornalismo para ser famosa.”
Ela explica por que muitas vezes ignorava o teleprompter:
“Eu não lia porque sabia que a pessoa não ia entender. O jornalismo ainda tem aquela pompa de falar difícil, mas hoje a pessoa tá no celular ou fazendo comida. Precisa falar claro.”
Paulo concorda e provoca:
“A polarização chegou ao jornalismo.”
E arremata sua posição:
“Eu não sou filiado a nenhum partido e não preciso ser para exigir que meu país funcione.”
Educação cidadã, observatórios e menos ‘nós contra eles’
A conversa passa por experiências concretas de integração entre poder público e sociedade civil, pela necessidade de educação cidadã no currículo escolar e por exemplos simples que a escola ignora:
“Quem vende jaca na BR-324 deveria vender perto do quebra-molas. Isso é física aplicada.”
Thaic resume o problema do nosso tempo:
“Fofoca todo mundo compartilha, mas discussão de qualidade não.”
Projeto de lei popular: cidadania em ação
No fim, Paulo apresenta seu projeto de lei popular para ampliar a dedução do Imposto de Renda em doações a instituições filantrópicas:
“Muitos acham que se assinar eu vou vender algo ou criar curral eleitoral. Isso é ignorância cidadã.”
Thaic responde com ação prática:
“Eu assinei naquele dia. É menos de um minuto.”
O sinal no muro e a coragem como bússola
O episódio se encerra com um relato pessoal que diz mais que qualquer slogan. Thaic lembra o dia em que pediu um sinal a Deus após pedir demissão:
“Vi pichado num muro: ‘Deus ama mais quem tem ousadia’. Entendi que era para mim.”
Paulo fecha como quem conhece o peso do tempo e das escolhas:
“Como dizia Dona Canô: ‘Só é feliz quem tem coragem’.”
No fundo, a mensagem transmitida é simples, mas dura: cidadania não é esperar a chuva cair. É aprender a lê-la, prever seus ciclos e plantar na hora certa. O resto é sorte. Ou desculpa.