O episódio 101 do podcast É da Nossa Conta!, apresentado por Paulo Cavalcanti, recebeu uma das principais referências da educação baiana. Professora, ex-reitora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) por dois mandatos e ex-secretária de Educação da Bahia e de Feira de Santana, Anaci Bispo Paim participou de uma conversa sobre os desafios da educação brasileira, a formação cidadã e o futuro do mundo do trabalho.
A entrevista foi ao ar na segunda-feira (20), poucos dias após a aprovação da Lei nº 15.468, que torna obrigatórios, na educação básica, conteúdos relacionados à educação política e aos direitos da cidadania, tema que serviu de ponto de partida para a conversa.
Educação como prioridade
Ao responder à provocação de Paulo Cavalcanti sobre o atual estágio da educação brasileira, Anaci defendeu que a educação não pode ser vista como solução isolada para os problemas do país, mas afirmou que nenhuma transformação relevante será possível sem ela.
“A educação não é a única responsável pelas transformações sociais que a sociedade precisa, mas nenhuma grande transformação vai acontecer sem a educação ser tratada como prioridade”, afirmou.
Continua após a publicidade / Confira o episódio:
Na avaliação da educadora, o Brasil conseguiu ampliar significativamente o acesso à escola nas últimas décadas, mas ainda enfrenta um grande desafio relacionado à qualidade do ensino.
Segundo ela, o país avançou no atendimento da população em idade escolar, porém muitos estudantes chegam ao fim da educação básica sem dominar competências essenciais, comprometendo sua inserção no ensino superior, no mercado de trabalho e no exercício pleno da cidadania.
Gestão faz a diferença
Um dos pontos centrais da entrevista foi a defesa da gestão escolar como elemento capaz de transformar a realidade da escola pública.
Anaci lembrou o caso de uma escola do distrito de Rio do Antônio, no interior da Bahia, que alcançou o melhor desempenho em matemática do estado, superando inclusive a média nacional, mesmo sem contar, naquele período, com professores graduados na disciplina.
Ao visitar a unidade, ela constatou que o diferencial não estava na estrutura física nem no perfil dos profissionais, mas no compromisso coletivo de toda a comunidade escolar.
“Os responsáveis diretos eram todos: do porteiro à servente, à diretora e aos professores. Todos tinham um único compromisso: fazer com que aquela escola fosse de qualidade.”
Para a professora, esse exemplo demonstra que uma boa gestão é capaz de mobilizar professores, funcionários, famílias e comunidade em torno de um projeto comum, criando um ambiente favorável ao aprendizado.
Preparar para o trabalho
Outro tema discutido foi a transformação do mercado provocada pela tecnologia e pelas mudanças nas relações de trabalho.
Anaci defendeu que a educação precisa preparar os estudantes não apenas para ocupar empregos tradicionais, mas para atuar em um ambiente profissional cada vez mais dinâmico, marcado pelo empreendedorismo, pela inovação e pelo domínio das tecnologias.
Como exemplo, ela citou a implantação do curso de Engenharia de Alimentos na UEFS, desenvolvido em parceria com o Sebrae, permitindo que estudantes concluíssem a graduação já com projetos estruturados para criação dos próprios negócios.
“O emprego está em decadência, mas o trabalho não. O trabalho se renova a cada momento.”
Segundo a educadora, a tecnologia não substitui o professor, mas amplia as possibilidades de aprendizagem e exige profissionais cada vez mais preparados para lidar com novos ambientes e novas formas de produzir conhecimento.
Confiança, liderança e legado
Na parte final da entrevista, Anaci destacou que o fortalecimento da educação depende também da formação de lideranças comprometidas com o interesse coletivo.
Para ela, liderar significa inspirar, reunir pessoas em torno de objetivos comuns e construir relações baseadas na confiança, e não apenas exercer autoridade.
Ao encerrar o episódio, Paulo Cavalcanti ressaltou a importância de ouvir pessoas com larga experiência na educação para compreender os desafios do país e reforçou que a construção de uma cidadania mais consciente passa, necessariamente, pela valorização do conhecimento, da ética e da participação social.