Tecnologia Cívica: quando inovar também é fortalecer a democracia participativa

Por: Movimento Via Cidadã

08/04/2026

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Existe hoje um conjunto crescente de soluções digitais que estão reorganizando a forma como o cidadão se relaciona com o poder público. Aplicativos, plataformas, sites, chatbots e sistemas que permitem acompanhar, fiscalizar, propor e participar. É o que chamamos de Tecnologia Cívica, ou Civic Tech.

O termo refere-se ao uso de ferramentas digitais que tornam a interação entre cidadãos e instituições públicas mais aberta, acessível e significativa. Na prática, é a tecnologia aplicada à democracia participativa.

Segundo o IBGE, mais de 93% dos domicílios brasileiros estão conectados à internet. São cerca de 74,9 milhões de lares. Além disso, aproximadamente 84% da população com 10 anos ou mais está online, o que representa mais de 159 milhões de pessoas.

Mas há um dado que precisa ser observado com atenção: 60% desses brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo celular. Isso significa que a democracia digital não está no futuro ela já está no bolso da população. O desafio agora não é conectar; é engajar e conscientizar a população sobre a importância da nossa participação e como essas tecnologias podem contribuir para o exercício da nossa democracia participativa e do nosso empoderamento cívico.

Iniciativas como a plataforma do Movimento Via Cidadã (participe.movimentoviacidada.org.br), que coleta assinaturas para projeto de Lei de Iniciativa Popular, o Mapa do Acolhimento, o aplicativo o Poder do Voto, o app Meu Deputado e o Monitora, que permitem que qualquer cidadão acompanhe gastos e atividades de parlamentares, por exemplo.

E há também um ponto essencial nessa discussão: nem toda inovação vem do setor privado. Os próprios governos têm avançado no desenvolvimento de plataformas digitais que ampliam a participação e a transparência. Portais de dados abertos, sistemas de orçamento participativo, aplicativos de serviços públicos e plataformas de acompanhamento de políticas públicas já fazem parte dessa nova infraestrutura democrática.

Aqui entra uma distinção importante. A GovTech está voltada para soluções que modernizam a gestão pública, muitas vezes desenvolvidas para instituições governamentais. Um bom exemplo é o sistema GOV.BR. Há ainda o aplicativo Orçamento Aberto, desenvolvido pela Câmara dos Deputados como ferramenta gratuita disponível para Android e iOS que permite ao cidadão monitorar em tempo real a execução de emendas parlamentares e o Orçamento da União. Com ele, é possível pesquisar emendas individuais e de bancada, além de receber notificações sobre a liberação de recursos.

A Tecnologia Cívica, por sua vez, está centrada no cidadão, na sua capacidade de participar, influenciar e acompanhar. Mas, na prática, essas duas agendas não competem. Elas se complementam. Quando integradas, criam um ecossistema capaz de transformar a relação entre Estado e sociedade.

E isso também tem implicações econômicas. Segundo o relatório global “Civic Services Market 2024”, o mercado de serviços cívicos movimentou mais de US$ 1,1 trilhão em 2023, com crescimento contínuo projetado. Isso indica que estamos diante de um setor em expansão, com capacidade de gerar inovação, investimento e novas oportunidades de negócio. Resolver problemas públicos também gera valor econômico.

Ao desenvolver soluções para transparência, participação, educação cidadã e gestão pública, essas iniciativas criam um novo campo produtivo, especialmente relevante em um país marcado por desigualdades e desafios institucionais.

Mas talvez o ponto mais estratégico dessa discussão não seja tecnológico nem econômico, mas cultural e de educação para a democracia. Nós ainda não construímos, no Brasil, uma cultura sólida de participação contínua. Temos as ferramentas, os dados, a conectividade. Mas ainda precisamos transformar isso em hábito.

E se as escolas, organizações sociais e cada um de nós começássemos a disseminar essa cultura de participação cidadã digital?

Se a Civic Tech já está disponível, precisamos preparar, especialmente os jovens para utilizá-la de forma consciente, crítica e ativa. Não basta disponibilizar plataformas; o ponto de atenção é formar cidadãos que saibam usar essas ferramentas com inteligência cidadã.

Porque, no fim, a tecnologia não substitui a cidadania. Ela potencializa. E talvez a pergunta mais importante deste momento seja: o que estamos fazendo com a democracia que já cabe na palma da nossa mão?

Inovar, nesse contexto, não é apenas desenvolver novas ferramentas. É construir novas formas de participação.

Cidadania se constrói em conexão.

Artigo escrito por Cris Santos, Diretora Executiva da Fundação Paulo Cavalcanti.