No episódio do podcast É da nossa conta que foi ao ar nesta segunda-feira (23), Paulo Cavalcanti recebeu o historiador Rafael Dantas para uma conversa centrada na relação entre memória histórica, participação cidadã e desenvolvimento social. O diálogo partiu de uma constatação comum aos dois: o Brasil ainda não aprendeu a usar o próprio passado como instrumento de transformação.
Para Rafael Dantas, o problema começa na forma como a história é compreendida. “A gente de fato não sabe a nossa história. A gente tem recortes, resumos, pedacinhos soltos daquilo que nós somos”, afirmou. Segundo ele, esse desconhecimento compromete a capacidade de entender problemas atuais e formular soluções consistentes.
Ao relatar sua experiência na gestão pública em Salvador, o historiador destacou o uso da história como ferramenta prática. “Em alguns bairros, muitos jovens perguntavam: ‘por que Pernambués tem esse processo de esquecimento do poder público?’”, disse. Para ele, compreender o crescimento urbano desordenado da cidade é fundamental para explicar as desigualdades e orientar políticas públicas mais eficazes.
Continua após a publicidade / Confira o episódio:
História, cidadania e participação
Paulo Cavalcanti ampliou a discussão ao relacionar o déficit de conhecimento histórico à baixa participação cidadã. “A gente não conhece nem a nossa Constituição de 88, que não tem nem 40 anos!”, afirmou. Para ele, a ausência de compreensão sobre direitos e deveres limita a capacidade de cobrança da sociedade e enfraquece o funcionamento da democracia.
Nesse contexto, o empresário defendeu o papel das entidades de classe e dos chamados grupos de pressão. “Nós precisamos ter o grupo de pressão, para que o governo não se sinta desvigiado”, pontuou. Segundo ele, a atuação organizada da sociedade civil é essencial para garantir equilíbrio nas relações entre cidadãos e poder público.
A análise histórica também entrou no debate sobre o papel da Bahia no cenário nacional. Rafael Dantas utilizou a expressão “rainha destronada” para descrever a perda de protagonismo econômico do estado ao longo do tempo, especialmente após a concentração de investimentos no Sudeste. Para ele, esse processo ajuda a explicar parte das dificuldades estruturais enfrentadas atualmente.
Polarização, desinformação e os entraves do presente
A conversa avançou para uma crítica ao ambiente político contemporâneo. Cavalcanti classificou o cenário como marcado por uma “infantilidade da nossa inteligência cidadã”. “As pessoas se matam como time de futebol, isso é ignorância”, afirmou, ao comentar a polarização e a dificuldade de construção de diálogo público qualificado.
Dantas concordou com a avaliação e destacou a ausência de continuidade nas políticas públicas como um dos principais entraves ao desenvolvimento. “A gente não resolve os problemas, a gente empurra com a barriga”, disse, ao apontar a descontinuidade administrativa e a falta de compromisso com projetos de longo prazo.
Como exemplo prático, Cavalcanti citou o Projeto de Lei Popular da Fundação Paulo Cavalcanti, voltado ao incentivo de doações para instituições de saúde. Ao relatar a tentativa de mobilização popular, destacou o nível de desinformação enfrentado. “O pessoal perguntava: ‘se eu assinar isso eu perco meu Bolsa Família?’”, afirmou.
Ao longo do episódio, os dois convergiram em um ponto central: sem conhecimento, organização e participação ativa, a sociedade tende a repetir padrões históricos de ineficiência e baixa mobilização.
A síntese veio na reflexão de Rafael Dantas, lembrando uma clássica frase de Millôr Fernandes: “o Brasil tem um longo passado pela frente”.