A maioria que pode transformar: da conquista do voto feminino à potência cidadã que o Brasil precisa

Por: Movimento Via Cidadã

20/03/2026

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Há 94 anos, exatamente em 24 de fevereiro de 1932, o Brasil deu um passo civilizatório decisivo: reconheceu o direito das mulheres de votar e serem votadas. Aquela conquista não foi uma concessão, mas resultado de décadas de mobilização de mulheres que entendiam que sem participação política não há cidadania plena.

Hoje, quase um século depois, vivemos um paradoxo preocupante. Segundo o IBGE (2024), as mulheres tornaram-se a maioria da população brasileira: são cerca de 6 milhões de mulheres a mais que homens no país, representando 52,86% do eleitorado, com mais de 82 milhões de eleitoras. No entanto, essa maioria ainda não se traduz nos espaços de poder. Embora representem cerca de 34% das candidaturas, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras na Câmara Federal e apenas 15 vagas no Senado, de acordo com o TSE (2022).

O direito ao voto foi a ferramenta que abriu a porta. Mas a filosofia da consciência cidadã nos ensina que não basta ter direitos; é preciso exercê-los com responsabilidade. Quando as mulheres participam da política, a pauta pública se expande, e educação, saúde, políticas de cuidado e proteção social ganham prioridade. A história já demonstrou que a presença feminina na arena pública não apenas diversifica os rostos no poder, mas aprofunda a própria democracia.

Vamos pensar no que aconteceria se, com 6 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil, estas eleitoras se mobilizassem de forma articulada e organizada? Se a consciência cidadã feminina se transformasse em ação coletiva? Não estamos falando apenas de votos, mas de uma rede de transformação social capaz de reescrever as prioridades do país.

Existem movimentos importantes no Brasil que lutam pela inclusão feminina na política institucional. E essas lutas precisam continuar. Mas há uma dimensão igualmente poderosa e muitas vezes subestimada: a micropolítica. É o poder que se exerce no cotidiano. É a mulher no conselho municipal de saúde, a liderança comunitária que organiza o bairro, a professora que forma consciências críticas, a empreendedora social que transforma sua comunidade.

Enquanto debatemos a pirâmide do poder pelo topo, esquecemos que toda transformação estrutural começa pela base. A participação feminina nos territórios, nas organizações e nas redes locais é o alicerce sobre o qual se constrói a representação nos espaços maiores. Não existe topo sem base. E é na base que já estamos, em maior número. Democracias não se sustentam apenas com a democracia representativa; sustentam-se com o exercício da democracia participativa. E essa ativação começa de baixo para cima, do bairro ao município, do município ao estado, do estado ao país.

Juntas somos mais fortes: o fim da Abelha Rainha

Há, porém, um obstáculo que precisamos reconhecer: a síndrome da abelha rainha. É o comportamento, ainda presente em muitos ambientes, de mulheres que chegaram a posições de liderança e, em vez de abrir caminho para outras, fecham as portas atrás de si. No mercado de trabalho e na vida pública, essa postura nos enfraquece coletivamente e contradiz o próprio potencial transformador que defendemos.

Se queremos uma democracia mais representativa, precisamos começar por dentro. Apoiar, indicar, amplificar e celebrar outras mulheres não é generosidade, é estratégia. É reconhecer que o avanço de uma fortalece o caminho de todas. A sororidade não é um valor abstrato; é uma prática política concreta que começa nas relações cotidianas e se reflete nos espaços de poder. Uma maioria que não se une permanece fragmentada. E uma maioria fragmentada não transforma nada.

Consciência, Participação e Transformação

Se o século XX foi marcado pela luta pelo direito de votar, o século XXI nos convida a um novo ciclo: o da consciência cidadã transformada em ação coletiva. A conquista de 1932 não foi obra de uma mulher só. Foi o resultado de uma geração que se uniu em torno de um propósito comum. Honrar esse legado, 94 anos depois, significa retomar esse espírito: participar, apoiar e avançar juntas.

Seja ocupando um cargo eletivo, um conselho comunitário, uma liderança de bairro ou simplesmente apoiando outra mulher em sua trajetória, cada ato de participação é um tijolo na construção de uma democracia mais justa e representativa. A luta que começou há 94 anos não terminou. E agora, mais do que nunca, precisa da nossa voz, da nossa presença e da nossa união.

A porta foi aberta há 94 anos. Agora, chegou a hora de nos conectar, conscientizar, participar e transformar. Juntas.

Artigo escrito por Cris Santos, Diretora Executiva da Fundação Paulo Cavalcanti e Movimento Via Cidadã.