Durante décadas, o mercado operou sob lógicas conhecidas, como o B2C (Business to Consumer) e o B2B (Business to Business), modelos foram fundamentais para o crescimento econômico global e para a consolidação de organizações em diferentes setores. No entanto, o cenário atual aponta para uma mudança estrutural mais profunda, que vai além da digitalização tradicional e exige uma nova forma de pensar os modelos de negócio.
Durante a aula “Modelo de Negócio”, ministrada por Cris Veiga, na trilha Mulheres de Sucesso do Grupo Mulheres do Brasil e nas reuniões com Paulo Cavalcanti, presidente da fundação que atuo e que leva o seu nome, esta constatação ganhou ainda mais força. Ali ficou evidente que estamos entrando na era do B2A (Business to Agent) e do A2A (Agent to Agent), em que empresas e organizações passam a se relacionar diretamente com agentes inteligentes e, em muitos casos, esses próprios agentes dialogam entre si para otimizar processos, decisões e fluxos de trabalho.
Não se trata apenas de tecnologia, mas de uma nova lógica de organização do trabalho, da tomada de decisão e da geração de valor. No modelo B2A, sistemas baseados em Inteligência Artificial assumem funções analíticas e operacionais, analisando dados, apoiando decisões e executando tarefas de forma contínua. Já no A2A, esses agentes interagem entre si, trocam informações, cruzam dados e constroem respostas mais rápidas e eficientes, reduzindo custos e ampliando a capacidade de escala das organizações.
Talvez um dos maiores equívocos sobre a Inteligência Artificial seja tratá-la meramente como substituta da força de trabalho humana. Na prática, a IA reorganiza papéis, libera pessoas para atividades mais estratégicas e amplia significativamente a capacidade de impacto das organizações. Nos negócios privados, essa transformação já é visível. No Terceiro Setor, porém, esse debate é ainda urgente e necessário.
Organizações da sociedade civil lidam diariamente com desafios complexos, como escassez de recursos, necessidade constante de mensuração de impacto, gestão de projetos e comunicação com múltiplos públicos e territórios. Nesse contexto, modelos baseados em B2A e A2A podem se tornar aliados estratégicos. Na gestão, agentes inteligentes podem automatizar a organização de dados, integrar informações de diferentes projetos e apoiar decisões mais qualificadas da liderança institucional. Ao se comunicarem entre si em um modelo A2A, esses agentes conseguem identificar gargalos, antecipar riscos e orientar estratégias com maior precisão.
A Inteligência Artificial, quando utilizada com ética, propósito e responsabilidade, pode fortalecer a governança e potencializar a missão social das organizações. Mais do que isso, pode contribuir para uma atuação mais consciente e orientada a resultados reais na ponta, onde se multiplicam territórios marcados por vulnerabilidades históricas.
O futuro que se desenha é inteligente, colaborativo e precisa ser, acima de tudo, consciente. Não estamos falando apenas de inovação tecnológica, mas de inovação institucional, cultural e cidadã. A pergunta que fica não é se o Terceiro Setor vai se relacionar com a Inteligência Artificial, mas como e para quê.
No Brasil, um país marcado por profundas desigualdades e por uma preocupante apatia política, onde muitas vezes normalizamos os desvios e os furtos diários dos cofres públicos, transformar a cultura da baixa participação cidadã e enfrentar narrativas partidárias construídas para a manutenção do poder é uma necessidade imediata. Nesse contexto, o modelo A2A pode ser um aliado poderoso da educação cidadã. Agentes inteligentes podem cruzar dados públicos de orçamento, políticas públicas e indicadores sociais e, a partir desse diálogo entre sistemas, traduzir informações complexas em conteúdos acessíveis para a população.
Na prática, isso significa permitir que um cidadão em situação de vulnerabilidade compreenda quais políticas existem em seu território, quais recursos deveriam chegar até sua comunidade e como acessar seus direitos. Essa inteligência aplicada pode apoiar escolhas mais conscientes, fortalecer o protagonismo social e contribuir para a transformação concreta da realidade local.
A maturidade da Inteligência Artificial nos negócios começa quando gestão, eficiência e impacto social deixam de competir entre si e passam a operar como um único sistema, orientado por uma lógica A2A a serviço do coletivo.
Artigo escrito por Cris Santos, Diretora Executiva da Fundação Paulo Cavalcanti e Movimento Via Cidadã.