Escrevemos, mas o Brasil não lê: a crise silenciosa que sabota nossa cidadania

Por: Movimento Via Cidadã

06/08/2025

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Tem algo profundamente errado num país onde se escreve tanto… e se lê tão pouco. Produzimos livros, artigos, colunas. Mas a verdade dura é esta: mais da metade dos brasileiros simplesmente não lê.

A leitura, que deveria ser ferramenta de libertação, segue distante de milhões. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), apenas 47% da população com 5 anos ou mais leu — ainda que parcialmente — ao menos um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Isso quer dizer que cerca de 100 milhões de brasileiros vivem à margem da leitura. E, por consequência, longe do pensamento crítico, da análise e da capacidade de discernir.

Esse dado escancara um paradoxo: produzimos conteúdo, mas não formamos leitores. E mesmo entre os que leem, os temas mais consumidos reforçam o abismo. A maioria lê livros religiosos (55%) ou ficções e romances (42%). Apenas 12% buscam assuntos que alimentam o discernimento e a cidadania, como os livros de história, política, economia, filosofia ou ciências sociais.

Mais grave ainda: o número de gêneros lidos por pessoa caiu de 4,1 em 2019 para 2,4 em 2024. Um país que lê pouco e lê menos do que lia está andando para trás, justamente no momento em que mais precisaria de consciência para enfrentar polarizações extremas, narrativas manipuladas e o caos informativo das redes sociais.

Não se trata de desprezar a fé nem o entretenimento. Mas um país que não lê sobre si mesmo, que ignora sua história, suas instituições, seus dilemas econômicos e sociais… é um país que não se entende. E quem não se entende, não muda.

A pergunta que se impõe é incômoda: será que estamos apenas perdidos num labirinto de imaturidade cidadã? Ou há quem se beneficie desse atraso? Será que não encontramos a saída? Ou alguém está escondendo o mapa?

Essa resistência à leitura crítica, ao amadurecimento coletivo e à responsabilidade cidadã não é só falha histórica. É engrenagem de um sistema que se alimenta da alienação da maioria.

É para reajustar essa engrenagem que a Fundação Paulo Cavalcanti vem atuando. Além de produzir conteúdos, estamos propondo ações práticas, estruturantes e transformadoras, começando pela base: a Educação da Consciência Cidadã.

Apresentamos ao país um Projeto de Lei que institui essa disciplina nas escolas públicas e privadas, do ensino fundamental ao médio. O conteúdo aborda pertencimento, deveres constitucionais, direitos coletivos, função social dos tributos, respeito às instituições e compromisso com a boa gestão pública. Não é uma educação para formar eleitores. É para formar cidadãos.

Essa mesma proposta é a espinha dorsal do Estatuto da Consciência Cidadã Nacional, que cria mecanismos de controle social como as Comissões Mistas de Acompanhamento Cidadão e os Observatórios da Eficiência Pública. A ideia é simples e ousada: não basta cobrar do Estado. É preciso participar da reconstrução do país.

Para integrar iniciativas cívicas em todo o território, criamos a Rede Nacional do Movimento Via Cidadã. Uma plataforma que conecta escolas, lideranças comunitárias, instituições e entidades empresariais para promover educação cidadã e participação democrática real.

Mas sabemos também que não há cidadania plena com informalidade crônica. Por isso lançamos o Projeto Marsúpio, que acolhe o pequeno empreendedor raiz — o que vende na rua, na feira, em casa — oferecendo educação básica contextualizada, alfabetização digital, apoio psicológico e orientação tributária. Tudo por meio de um aplicativo que responde por voz, pensado também para quem ainda não sabe ler. Aqui, a tecnologia é ponte, não barreira.

Sabemos que é possível avançar. Estados como Santa Catarina (64%), Ceará (54%) e Paraná (54%), já estão acima da média nacional em leitura. Há exemplos. Falta vontade política para replicá-los em larga escala.

Chegou a hora de reconhecer: não basta escrever para um povo que não lê. É preciso formar leitores, motivar o hábito e garantir o acesso ao conteúdo que desperta. Só assim construiremos uma democracia viva, uma economia justa, uma sociedade capaz de pensar e agir com maturidade.

A transformação começa pela leitura. Mas não qualquer leitura. A leitura que liberta, desperta, incomoda e impulsiona. E essa não virá por acaso. Virá pela coragem de fazer da cidadania um dever de Estado. E de cada um de nós.

É por isso que este manifesto está sendo distribuído durante a Flipelô – a Festa Literária do Pelourinho. Não apenas como celebração da palavra, mas como um chamado à ação. Que este encontro com os livros seja também um ponto de virada. Que a leitura nos leve à consciência. E a consciência, à transformação.